Embora haja várias teorias plausíveis acerca das origens do Tarot, há muito poucas certezas acerca da sua verdadeira história. Considera-se que as cartas de jogar tiveram origem na China, havendo referências a cartas que datam de cerca do ano 970.
Parece existir algum consenso de que o Tarot teria tido origem no Antigo Egipto, defendendo-se mesmo a origem egípcia do vocábulo. Também se aventou que a palavra Tarot pode vir de tarocco, um jogo conhecido em Itália durante o período medieval. Os relatos mais antigos referem-se ao Antigo Egipto, acerca da descoberta das 22 lâminas de ouro com os símbolos dos Arcanos Maiores, no templo de Mênfis. O fundo dourado ou prateado dos antigos Tarots italianos poderia confirmar esta hipótese, e ainda hoje se pode designar os Arcanos Maiores por lâminas, bem como por arcanos, que em latim significa segredo, ou por «chaves de meditação», o que evidencia que as cartas transmitem mistérios e a sua contemplação servia a abrir as portas do inconsciente.
Há vestígios de que o Tarot já circulava antes da Idade Média, sobretudo em Itália, mas durante a Inquisição muitos baralhos foram queimados pela Igreja, pois era considerado um caminho de pecado e paganismo. Somente no século XIV, o Tarot aparece difundido na Europa, há quem diga que trazido pelos ciganos. Ressalve-se que da mesma forma que se apontam os ciganos como principais disseminadores do Tarot, como povo que sabe ler a sina, existe alguma confusão semântica com o facto de os ciganos também costumarem ser designados como «Egípcios» (como no termo inglês, Gipsy). Pensa-se assim que as primeiras cartas numerais do ocidente chegaram vindas do Egipto. Encontram-se fragmentos de jogos do período mameluco, datando do século XII e XIII. Chegou até aos dias de hoje um jogo completo que data de 1400, dividido em quatro naipes e cores, numeradas de 1 a 10, seguidas de três figuras masculinas, que se pode considerar equivalentes ao rei, ao pajem e ao valete. Parece óbvia a correspondência com os Arcanos Menores, figuras oriundas das cartas de jogar. As cartas de jogar, por seu lado, são elas próprias uma série de figuras que podem ter tido origem no jogo de xadrez, constituído pelo Rei, Rainha, dois Valetes e os números de cartas equivalentes ao dos peões.
O baralho mais antigo que se conhece é o de Visconti, mandado fazer por Duce Filippo Maria Visconti, duque de Milão. Este jogo de cartas data de 1392, e segue o exemplo egípcio de lâminas com fundo em metal (ouro ou prata), pinadas ao estilo das iluminuras medievais, cheios de simbólica. Estes jogos eram verdadeiras obras de arte, utilizadas com fins recreativos pelas famílias nobres.
No final do século XIV, difundiu-se a existência de cartas de jogar pela Europa, havendo alguma confusão entre dois fenómenos distintos que acabaram por se complementar: a adopção pelo Ocidente das cartas numerais, inspiradas nos jogos egípcios, e o desenvolvimento de figuras emblemáticas às quais se deu o nome, em Itália e Espanha, de algumas figuras das cartas dos jogos egípcios, os naipes. A difusão das cartas mamelucas e dos naipes deve ter uma relação com a expulsão dos judeus sefarditas de Espanha, em 1492. Alguns estudiosos atribuem utilização das 52 cartas numerais como forma de transmitir alguns conhecimentos esotéricos. Por conseguinte, a criação dos Arcanos Maiores pode remontar igualmente a esse período histórico, como forma de transmitir segredos e conhecimentos iniciáticos de forma críptica.
Os naib, ou naipes, começaram por ser colecções de imagens com intenção pedagógica e instrutiva. Por exemplo, o Tarot erradamente atribuído a Mantegna, um dos primeiros jogos, tarocchi, conservados até à actualidade, representa não um jogo de cartas mas uma série de cinquenta gravuras, em madeira. Crê-se que o seu criador foi um artista da escola de Ferrara, Michele Parrasio, que compôs cinco grupos de dez figuras com fins iniciáticos, inspirado na filosofia hermética, esotérica e alquimista.
Estas cartas representam assim as condições sociais da humanidade e o desenvolvimento pessoal de cada indivíduo (mendigo/Louco, artesão/Mago, cavaleiro, rei, imperador, papa); as nove musas e Apolo, fontes de inspiração; as artes liberais; as virtudes cardiais (Temperança, Força, Justiça); as esferas celestes (Lua, Sol). Este jogo podia ser utilizado como suporte artístico de meditação e reflexão, bem como possuir intenções divinatórias, tal como o Tarot. No entanto, não se deve cair no erro de julgar que o Tarot, com os seus dois 22 Arcanos Maiores, seria uma sobrevivência destas 50 figuras, ainda que possam ser apontadas algumas coincidências entre os dois jogos de cartas, como explicitámos entre parênteses.
No século XV dá-se o fenómeno de disseminação e popularização do Tarot, com a imprensa, em várias cidades italianas. O Tarot de Marselha surgiu no século XVIII, respeitando a iconografia dos anteriores baralhos.
Os investigadores ocultistas franceses do século XIX abriram caminho a alguns movimentos que singraram na Grã-Bretanha, como os rosa-cruz (um sistema filosófico aparentado à franco-maçonaria, baseado na cabala hebraica) que adoptaram o Tarot como principal instrumento da sua doutrina. No início do século XIX, Aleister Crowley, dirigente da ordem de rosa-cruz Golden Dawn, reinventou o Tarot, redesenhando-o.
Este gesto criativo marcou uma nova etapa na produção de baralhos. A britânica Pamela Colman-Smith, sob a orientação de Arthur Edward Waite, em 1910, desenhou o seu próprio baralho, hoje conhecido por Rider-Waite ou Smith-Waite. As representações, belas e evocativas, com imagens claras e descritivas, levaram muitos outros desenhadores a abandonarem a tradição e a produzirem baralhos com estilos diferentes.
Foi o primeiro baralho a utilizar cartas figurativas para os Arcanos Menores e actualmente é o baralho mais utilizado nos países anglófonos. Os desenhos deste baralho demarcam-se pela sua beleza, mas há quem também os considere um pouco afectados, devido às suas reminiscências pictóricas ligadas à Idade Média tal como ela era imaginada na época, época em que os pré-rafaelitas estavam em voga. Outra novidade foi a troca entre a numeração das lâminas VIII e XI, sendo que no Tarot de Marselha a oitava lâmina representa a Justiça, e a carta XI é a Força, no baralho de Rider-Waite faz-se uma permuta entre estas duas figuras. A numeração das cartas do baralho é um assunto que por si só provoca muita discussão e desacordo. As Cartas dos Arcanos Maiores mais antigas, como as de Visconti, não têm nem nome nem número, embora muitos baralhos italianos do séc. XV tivessem numerais romanos no topo de cada carta, indicando um certo tipo de sequência. A ordem foi alterada frequentemente,ao longo dos anos, normalmente para que as cartas encaixassem nesta ou naquela teoria.
Em jeito de conclusão, o que as vinte e duas cartas dos Arcanos Maiores parecem descrever são os estágios arquetípicos de vida que nós todos experimentamos de forma particular, descritos ao longo da história da humanidade, dos mitos e das lendas.
Pelo nosso Consultor Paulo
Bibliografia
Kristyna Arcarti, Tarot – a arte de o consultar, Editorial Presença, Lisboa, 1993
Didier Derlich, Guia prático do Tarot, Pergaminho, 2000
Colette Silvestre-Haéberlé, Iniciação aos Tarots, Pergaminho, 1999
Juliet Sharman-Burke, Os segredos do Tarot, Editorial Estampa, 1998
Carla Isidro, Tarot, como desvendar o seu futuro?, Angelorum Novalis, 2006